Melodia Web
Rádio Melodia Web - www.melodiaweb.com - São José do Rio Preto - SP - Brasil
domingo, 26 de setembro de 2021
Ouça a MelodiaWeb
Página inicial Ouça música de qualidade pela Internet

Ouça a MelodiaWeb Este site possui uma rádio web que prioriza música italiana, MPB, clássica, tango, bolero, instrumental, esperanto, etc.
Clique na imagem ao lado para ouvir
Ouça a MelodiaWeb
Janela Cultural
Diminui o tamanho da fonte Aumentar o tamanho da fonte
UMA POETISA BICHO DA SEDA
Ático Vilas-Boas da Mota, quinta-feira, 26 de novembro de 2009
UMA POETISA BICHO DA SEDA

Sempre tive uma admiração incondicional por todas aquelas personalidades que são verdadeiros testemunhos de tenacidade, persistência e confiança em si mesmas. Elas nada esperam do mundo que as rodeiam, nem cruzam jamais os braços diante das vicissitudes, porque cultivam a esperança, ou melhor, a certeza de que a solução de seus problemas – por mais intrincados – depende exclusivamente dos seus esforços pessoais e não daqueles dos seus semelhantes. São otimistas. Sim, muito otimistas, porque são verdadeiros bichos-da-seda ou laboriosas aranhas, conseguindo retirar tudo de si mesmas, além de escrever belas histórias ao passarem pelo nosso planeta, espaço cósmico tão desengonçado!


Hoje, prazerosamente, brindarei os meus caros leitores com alguns comentários sobre uma personalidade muito singular. Refiro-me a Cora Coralina (= Ana Lins dos Guimarães Peixoto / 1889-1999), a goiana [ascendência pernambucana], a brasileira e, finalmente, a universal, aquela que soube nos dar uma bela lição de vida, sempre contando apenas com o seu árduo trabalho manual entremeado com a prática da leitura e o exercício da poesia. Estatura média, olhar penetrante, excelente declamadora dos seus próprios versos e dos outros. O trabalho de doceira não anulou a sua vocação literária. Usava da franqueza, irmã xipófaga da sinceridade, ou seja, prática costumeira de pensar em voz alta, porque, parodiando Racine (1639-1699), nela “a boca sempre foi a voz do coração”. Não tinha meias-palavras, preferindo aquelas de corpo inteiro. Visitei-a várias vezes e sempre me recebeu de braços abertos. Os deliciosos dedos-de-prosa que mantivemos – sem olhar o mostrador do relógio – repercutem ainda na minha memória como eternos e saudosos tesouros. Fluente – não tendo eu levado algum gravador – perdi muitas pérolas daquela figura inconfundível. Morava numa casa solarenga, plantada na margem esquerda do rio Vermelho, antigo caminho líquido que corta a cidade, carinhosamente chamada de Goiás Velho. Excelente confeiteira e exímia poetisa bissexta.


Brilhante palestradora, nunca cansou os que tiveram o privilégio de ouvi-la. Pronúncia escandida. A língua portuguesa era remoldada em seus lábios, sem tropeços nem arranhões, pois era uma autêntica ourives da palavra e, ao usá-la, sabia portar-se como uma zelosa sacerdotisa do verbo, procurando burilá-lo e, por isto mesmo, conseguia os melhores efeitos frásicos.


Visitei-a, muitas vezes, só para escutá-la, além de aproveitar o ensejo pra adquirir-lhe alguns doces por ela preparados com muito carinho e arte. Atividade paralela que nunca prejudicou as do seu espírito.


Numa de minhas habituais visitas, acompanhei o saudoso poeta Walmir Ayala (1933-1991) que me havia solicitado para acompanhá-lo, na condição de cicerone, até a bela e vetusta cidade. No meio de nossa longa conversa, sempre com os ouvidos bem sintonizados, não me lembro muito bem o motivo porque veio à baila a dicotomia: Idiotice versus loucura. Ela prontamente retrucou:


“O mundo anda cheio de idiotas e entremeado de alguns loucos. Mas eu prefiro os loucos!” Ao sairmos daquela casa, templo de gentileza e convite à reflexão, o poeta gaúcho me segredou: “Essa mulher é genial, mas não o sabe!”


E aqui seguem mais dois episódios também bastante curiosos: Noutra visita, levei-lhe alguns familiares, lá de Macaúbas (BA), só para conhecê-la. Dentre eles, destacava-se o meu saudoso sobrinho Motinha, adolescente descontraído. Este, depois de encantar-se com tantas histórias e já meio saciado com os doces caseiros, saiu-se com esta:


– “Eu gostaria tanto que a senhora – Dona Cora – fosse a minha avó!” A resposta coracoralínica não se fez esperar: “Eu já o sou, meu netinho! Você ainda duvida disso?” E voltou a servir-nos os seus doces maravilhosos! Era assim a nossa poetisa-mor.


Outra resposta memorável, inteligente e pronta, foi dada a um jornalista, que, entre inexperiente e indiscreto – por sinal meu amigo – perguntou-lhe:


– “Dona Cora, eu tenho uma curiosidade imensa em saber quantos anos a senhora tem!”


E ela, enérgica e fulminante:


– “Meu filho, eu sou de uma época em que não era de muito bom tom um cavaleiro perguntar a idade de uma mulher que já ultrapassou as fronteiras da mocidade! E além disso, eu nunca sei quando nasci, porque  nasço  e renasço a cada momento! E, quer saber mais? Há pergunta que, por vários motivos, não merece resposta...”


E assim, aquela figura inteligente, culta e milionária de espírito, carregava um alforje de respostas espirituosas, aquilo que os franceses chamam “boutades”. Algumas delas são antológicas e bem merecem ser catalogadas, publicadas e divulgadas, apesar de se encontrarem dispensas nas entrevistas concedidas aos periódicos de Goiás e outros Estados.


Grande prazer foi para mim tê-la conhecido pessoalmente, além de ter recebido o galardão da sua amizade! Sinto-me honrado e muito privilegiado por ter sido um de seus contemporâneos!

Ouça a MelodiaWeb Este site possui uma rádio web que prioriza música italiana, MPB, clássica, tango, bolero, instrumental, esperanto, etc.
Clique na imagem ao lado para ouvir
Ouça a MelodiaWeb
Veja também
(19/11/2015) Titanic Theme Song - My Heart Will Go On - Harp / Violin
(19/11/2015) Europeus: o futuro não pertence mais a vocês
(07/06/2015) Caranguejos
(09/05/2015) Música Clássica é sinônimo de concentração
(09/02/2015) Força interior!
(14/05/2014) Quem poupa o lobo, mata as ovelhas
(02/04/2014) Em duas décadas haverá mais mudanças que nos últimos dois mil anos, diz cientista
(14/03/2014) Projeto de vida, ou ...
(14/01/2014) Ai, que preguiça!!
(03/01/2014) O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem conhecem aquilo em que tropeçam.
(14/12/2013) Rádio Melodia, remédio da alma
(14/11/2013) Música
(06/11/2013) Música e Consciência
(02/11/2013) Equilíbrio e moderação nas atitudes e necessidades
(22/09/2013) Por um estilo de vida


Veja todo conteúdo desta categoria
Ouça a Rádio do coração
© 2021 Rádio Melodia. Todos os direitos reservados.
Design: Win Multimídia - Desenvolvimento:Adriel Menezes