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GEMEI NESTE VALE DE LÁGRIMAS!
na folha de SP, sábado, 23 de agosto de 2008
GEMEI NESTE VALE DE LÁGRIMAS!
Amigos do Coração,

Considero importante a leitura desse texto, do Dr. DRAUZIO VARELLA, com algumas ressalvas: não é bem assim que os médicos encaram a coisa, a maioria atua com recursos próprios, inclusive, para tentar minorar o sofrimento, mas existem leis retrógradas, a população não cobra e o governo não se importa, ou se omite. Leiam e vamos discutir...


Lidamos mal com a dor. A descoberta de novas drogas e os avanços tecnológicos que transformaram em ciência a medicina da segunda metade do século 20 não tiveram o mesmo impacto no tratamento da dor: ainda não foi encontrado analgésico de qualidades superiores à velha e boa morfina.

Por que este contraste?

Primeiro, por razões históricas: a dor está nos calcanhares de nossa espécie há pelo menos 5 milhões de anos. Já imaginaram quebrar uma perna, sentir cólica renal ou dor de dente no tempo das cavernas?

Segundo, porque, cada uma a seu modo, as religiões souberam encontrar finalidade no sofrimento físico ao atribuir-lhe função purificadora. Gemei e chorai neste vale de lágrimas é ensinamento milenar do cristianismo como receita infalível para a felicidade na vida eterna. Penitências e autoflagelações são consideradas demonstrações de fé em diversas crenças.

Quando a lei que autorizaria pesquisas com células-tronco foi levada à votação na Câmara dos Deputados assisti a uma discussão insólita entre uma mocinha na cadeira de rodas por causa de uma doença genética que enfraquece progressivamente os músculos, defensora da permissão à pesquisa, e um ativista de uma associação católica que se opunha a ela:

-Você acha que um óvulo fecundado num tubo de ensaio é uma vida mais importante do que o sofrimento de uma pessoa presa numa cadeira, como eu?

-Seu sofrimento não é nada perto de Jesus crucificado, respondeu o rapaz.

Na Europa inquisitorial, mulheres foram queimadas por gritar e maldizer as dores do parto, consideradas pela Igreja daquele tempo castigo divino imposto pelo Criador para expurgar o pecado cometido no momento da concepção. Na Inglaterra do século 20, crianças eram submetidas a pequenas cirurgias sem anestesia porque os médicos supunham que antes dos seis anos de idade o sistema nervoso, ainda imaturo, seria incapaz de conduzir adequadamente os estímulos dolorosos. Talvez por razões semelhantes, rabinos de hoje ainda fazem circuncisões a sangue frio, indiferentes aos berros do bebê.

A complacência com a dor alheia persiste insidiosa na medicina moderna. Fui formado pela USP sem assistir a uma só aula sobre tratamento de dores agudas ou crônicas, distorção lamentável que apenas nos últimos dez anos começa a ser corrigida nas faculdades, timidamente. Formar médicos sem prepará-los para considerar a dor um fato inaceitável torna-os desinteressados, incompetentes para enfrentá-la e, com o tempo, refratários ao sofrimento de seus pacientes.

Sem apelos sentimentais: enquanto você lê este texto, quantas pessoas pelo Brasil estão com dores que poderiam ser controladas com esquemas analgésicos simples? Quanto padecimento poderia ser evitado se os médicos conhecessem melhor a farmacologia da morfina, analgésico de escolha para os quadros de maior intensidade, o único que pode ter sua dosagem aumentada sem limites?

A situação é mais grave nos hospitais que atendem pelo SUS, por razões óbvias: quem pode menos, chora mais. Neles, o excesso de pacientes, a precariedade das instalações, a falta de profissionais e de remuneração para diversos procedimentos anestésicos criaram um universo cultural que parece não levar em conta a dor como fenômeno biológico.

No internato do Hospital das Clínicas, ao estagiar no pronto-socorro de obstetrícia, cabia ao interno atender às mocinhas com hemorragia causada por abortamento clandestino incompleto. O tratamento consistia em colocar um espéculo de aço para abrir a vagina, pinçar o colo do útero com uma espécie de alicate dotado de duas garras perfurantes, tracioná-lo, dilatá-lo com cilindros metálicos de diâmetro crescente para dar passagem à cureta e proceder à "raspagem" dos restos embrionários intra-uterinos.

Chocados com os gemidos das pacientes, reunimos um grupo de internos para cobrar do chefe do pronto-socorro a presença de um anestesista na sala.
Ele respondeu, atrás do cigarro:

-Não temos anestesista de plantão nem sala de recuperação para deixá-las até passar o efeito da anestesia. Depois, já imaginaram se elas contam para as amigas que nós resolvemos o problema com anestesia geral, a festa que vira isto aqui?
Decerto imaginava que as mocinhas pobres engravidariam e fariam abortamentos com agulha de crochê, como era habitual na época, só para ter direito à curetagem sob anestesia no Hospital das Clínicas.

Quase 40 anos mais tarde, em boa parte das enfermarias e ambulatórios que atendem pelo SUS a dor ainda é tratada à moda antiga.

A falta de pessoal e de instalações serve de justificativa para a realização de endoscopias -nas quais são introduzidos tubos da grossura de um dedo pela boca para chegar ao duodeno, ou através do reto para examinar o intestino por dentro, ou pelo nariz para atingir as ramificações dos brônquios-, biópsia de próstata com agulhas inseridas por via retal, drenagens de abscessos profundos e outras intervenções dolorosas, sem nenhuma sedação.

Até quando nós, médicos, vamos aturar e compactuar com essas limitações? Quanto tempo levará para rejeitarmos definitivamente essa visão benevolente da dor? A função primordial da medicina é aliviar o sofrimento humano. Não há outra justificativa para a existência de nossa profissão.
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